Caderno Claro, setembro de 2011

 O psicólogo Maurício Amaral de Almeida foi entrevistado pela jornalista Manoela Meyer para o caderno Claro, da edição 385, da primeira quinzena de Setembro de 2011, do Jornal do Campus, publicação do departamento de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da USP.


Faça o download da reportagem na integra. Estão disponíveis também a capa do Caderno Claro e do Jornal do Campus.

 

 

Um universo (quase) sem limites

Deixando de lado preconceitos, o fetichismo surge como um conjunto de práticas repletas de regras

por Manoela Meyer

 

À primeira vista, chocante, transgressor. No entanto, o fetichismo possui milhares de adeptos pelo mundo que buscam experiências onde dor, disciplina e prazer são quase sempre indissociáveis.

A comunidade fetichista é identificada pela sigla BDSM (“Bondage + Disciplina, Dominação + Submissão e Sadomasoquismo”). B&D é o universo associado a formas de aprisionamento e punição. Quanto ao D&S, inclui o poder de dominadores sobre submissos ou escravos. Chamar de “senhor” ou “dono” e prestar satisfação das atividades do cotidiano fazem parte do papel de um submisso. S&M é o fetiche mais comum, que envolve dar e receber prazer por meio da dor.

O que pouca gente sabe é que essas práticas seguem um tripé de regras, o chamado SSC (São, Seguro e Consensual). São significa que todos os envolvidos são mentalmente sadios, maiores de idade, conscientes de suas ações e não praticam nada ilícito (como necrofilia, antropofagia ou algo que cause dano físico permanente). Seguro é a garantia de que todas as precauções possíveis são tomadas. Os novatos, por exemplo, costumam participar de cursos sobre as práticas mais arriscadas, com respaldo em opiniões médicas. E todo fetichista sabe que sem consenso, não dá para fazer nada, ou sofrerá reprimendas de toda a comunidade.

Mas será que esses conceitos são simples de seguir? A sanidade nas práticas fetichistas é muito questionada, e para diversos especialistas, elas beiram o patológico. No caso da segurança, também cabem dúvidas. Pense em pessoas que se estimulam com asfixia ou simulação de estupro. Sabendo disso, adotou-se a sigla RACK (Risk Aware Consensual Kink), algo como “Perversão Consensual com Consciência de Risco”. Apenas o “consensual” é indiscutível. Mas cheio de particularidades, como a safe word, palavra que exige que os envolvidos em alguma prática parem imediatamente. Na cena fetichista brasileira, a palavra de ordem costuma ser “piedade” ou “clemência”.

A lista de termos desse universo não para por aqui. Os fetichistas, que curtem um desejo incomum,chamam-se de “kinkys”. Os menos ousados, que ficam de fora da comunidade, são os “baunilhas”.

Além disso, toda relação fetichista é hierarquizada, dividida entre tops – sádicos, dominadores – e bottoms – masoquistas, escravos, submissos. E ao contrário do que muita gente pensa, as relações estão longe de ser promíscuas. Se você for a uma festa fetichista, por exemplo, jamais verá cenas de sexo já que nenhum top pode ser visto nu em público. O que acontece nesses ambientes são as chamadas “cenas”, em que normalmente um casal “apresenta” seu fetiche a todos os presentes. Caso a intenção seja ter mais intimidade, um top e um (ou mais) bottons precisam marcar uma “sessão”, um encontro privado.

Quer saber mais? Visite o site do Claro!.

(Matéria baseada nas pesquisas de Maurício Amaral de Almeida, estudante da Psico/USP que há sete anos se dedica ao assunto)

 

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