A Cinderela Fetichista II: Verdades e Mitos em "Cinquenta tons mais escuros"

A Cinderela Fetichista II

Verdades e Mitos em: Cinquenta tons mais escuros

 

Pelo Psicólogo Maurício Amaral de Almeida

 

Obra: James, E. L. Cinquenta Tons Mais Escuros Ed. Intrínseca, São Paulo, 2011.

Aviso: Este texto contém detalhes da obra, incluindo o final do livro.

Leia também:

 

 

A Resenha

 

Ana, ou Anastásia Steele, é uma jovem de 22 anos, recém formada em literatura e recentemente admitida em uma pequena editora em Seatle, ela caba de terminar um relacionamento curto e intenso com Christian Grey, o poderoso CEO da Grey Enterprises Holdings Inc., que tinha como pano de fundo o universo fetichista também conhecido como BDSM

A novela “Cinquenta Tons Mais Escuros”, é a segunda parte da obra que se tornou conhecida como “Trilogia dos Cinquenta Tons” e, como a sua antecessora, é um exemplo típico das novelas românticas, no qual a relação romântica entre o herói e a heroína é o centro da trama. Neste tipo de obra a heroína é sempre uma mulher mediana com quem as leitoras possam se identificar enquanto o herói é um amálgama de todos os atributos que as mulheres, em média, tendem a valorizar. Para uma discussão mais detalhada dos personagens e para conhecer o incio da história pode-se ler a resenha “Cinderela Fetichista I”.

No final do volume anterior, Ana, tentando entender os limites das práticas e gostos de Christian, se dispõe a ser punida e receber seis cintadas. Esta experiência marca Ana que sente não ser capaz de suportar este estilo de vida e abandona a relação.

Após alguns dias Ana está de volta a Seatle e se preparando para assumir a sua posição de assistente de Jack Hide, o editor chefe da editora ASP.

Enquanto ela tenta reunir suas forças para superar o recente término ela é procurada por Christian que não pôde suportar estar longe dela e está disposto a qualquer sacrifício para voltar a ter Ana em seus braços.

Depois deste retorno triunfal, Ana e Christian finalmente conversam sobre os gostos pessoais de cada um e, como não poderia deixar de ser, eles têm gostos muito compatíveis em musica, cinema, lazer, etc... O que continua a construir a relação impossivelmente perfeita e perfeitamente adequada ao estilo da obra.

Neste momento surge Leila, a submissa anterior de Christian, que abandonou o marido e está desaparecida em Seatle. Leila, enquanto ainda submissa de propriedade de Christian Grey, assim como Ana, desejou mais, desejou ser a Senhora Christian Grey e como isso nunca seria possível, deixou o relacionamento e casou-se pouco tempo depois. Quando Leila tomou conhecimento que alguém, Ana, fora capaz de capturar o coração de seu antigo Dono não pode suportar a situação e desapareceu de casa, para reaparecer na rua ao lado de Ana e quando a vê diz a frase “O que você tem que eu não tenho?”.

Durante algum tempo após está primeira aparição de Leila, Christian toma todas as medidas de segurança possíveis para garantir a segurança de ambos. Mesmo como todas as medidas de segurança mais caras que o dinheiro poderia comprar Christian não consegue evitar que ela invada o seu apartamento, onde ela é vista por Ana no meio da noite. Dias depois, Leila, mostrando a mesma habilidade impressionante, consegue identificar e invadir o apartamento que Ana divide com sua amiga Kate.

Quando Ana retorna ao seu apartamento para se encontrar com o irmão de Kate que está em visita a Seatle, ela encontra Leila que a espera. Christian, sempre atento, e notando algo de irregular na entrada do edifício de Kate, chega ao logo depois. A presença de Christian é suficiente para dominar Leila, ela se ajoelha diante dele. Ele manda Ana sair e depois disso ele dá um banho em Leila que esta cansada e suja. Após a chegada do seu psiquiatra, Christian toma as providências para que ela seja internada em um hospital psiquiátrico que irá prover tratamento da melhor qualidade a Leila, por conta de Christian, é claro.

Saber como Christian cuidou de Leila, especialmente do fato de ele ter dado banho nela, foi muito difícil para Ana fazendo com que ela tivesse dúvidas quanto a sua capacidade de satisfazer as necessidades de Christian. Este ao perceber isso, e temendo perdê-la mais uma vez, se coloca de joelhos diante dela em um esforço suplicante para que ela não o abandone. Ana, estando profundamente confusa e desconfortável com esta situação acaba gritando com ele, neste momento ele entra em “modo submisso” se colocando totalmente nas mãos de Ana. Ela por sua vez não desejando a submissão de Christian acaba por se ajoelhar diante dele e perdoar o acontecido e tudo se encerra em mais uma sessão de sexo ardente.

O próximo grande evento do livro é uma tentativa de Jack Hide de assediar Ana. As abordagens, até então sutis, de Jack sobre Ana, que Christian desde o início percebe mas que Ana descarta como comportamento normal, são finalmente substituídas por uma pressão tão rude que ele sugere que ela considere ceder aos seus desejos como parte da sua descrição de tarefas como sua assistente. Ana, como seria de se esperar, rejeita veementemente a abordagem de Jack. Ele tenta então uma abordagem mais física à qual Ana reage com a aplicação de um golpe que ela aprendera com o segundo marido de sua mãe, a quem ela considera como seu pai.

Christian havia comprado a editora ASP em sigilo ao saber que Ana havia sido contratada, mas não interferia na gestão nem tampouco aparecia como proprietário. Ao saber, porém, da abordagem de Jack, ele toma as providências para que Jack não só seja imediatamente demitido e para que não consiga mais trabalho na área editorial. Ele toma, também, providências para que todos os arquivos e e-mails de Ana que Jack tivesse arquivado fossem apagados, e neste momento ele fica sabendo de outras coisas relevantes que haviam sido encontradas, pelo seu especialista em informática, no computador de Jack mas que não é dado ao leitor saber o que são.

A demissão de Jack Hide da editora ASP abre espaço para que Ana, mesmo sendo apenas a assistente recém-contratada assuma a posição temporária de Redatora Chefe, quando questionado por Ana, Christian alega não só não saber como também não ter nenhuma influência em tal promoção.

Poucos dias antes do aniversário do seu aniversário Christian desaparece em uma viagem de negócios. Ele teria decolado com seu helicóptero, Chalie Tango e o mesmo havia desaparecido durante o voo. As horas seguintes são tensas e todos, a família Grey, os amigos de Ana e os funcionários mais próximo de Christian estão reunidos no apartamento dele, atentos as notícias locais que informam o seu desaparecimento até que Christian finalmente chega em casa e relata que o helicóptero se incendiou mas que ele foi capaz de pousar em segurança e demorou todas as horas seguintes para retornar.

Finalmente chega o dia da comemoração do aniversário de Christian e Ana está muito envolvida e desejosa de proporcionar uma bela comemoração ao seu amado. Durante a festa Helena, ou Miss Robinson como Ana a chama, que é convidada da festa como amiga da família que é, chama Christian para uma conversa onde tenta convencê-lo que Ana não é a mulher que pode satisfazer as necessidades de Christian. A conversa se torna exaltada e Christian declara de forma veemente o seu amor por Ana, e para infelicidade de Helena, Grace, a mãe de Christian, acaba por tomar conhecimento do suficiente da historia de Helena para expulsá-la da casa.

A festa tem seu ápice quando Christian pede Ana em casamento e lhe oferece um estonteante anel de noivado.

A historia de Christian e Ana bem poderia terminar neste ponto, porem no epílogo surge Jack Hide, espreitando do lado de fora da festa, e jurando dedicar suas habilidades e inteligência acima do normal para se vingar daqueles que destruíram sua carreira.

 

Verdades e Mitos

A obra “Cinquenta Tons mais Escuros”, da mesma forma que sua antecessora, seria simplesmente mais um romance erótico feminino se não fosse a luz que traz sobre o universo do fetichismo erótico. Muitos dos conceitos mais essenciais deste universo já foram discutidos na resenha “Cinderela Fetichista I”, alguns novos conceitos que surgem neste volume são discutidos a seguir.

 

Devolução de coleira: (Como feita por Leila.) A coleira é o símbolo de compromisso na comunidade BDSM. Existem cerimônias de encoleiramento, comemorações de aniversário de coleira entre outras manifestações da importância da coleira como símbolo dos relacionamentos estáveis, esta relação é vista como algo sério que deve ser profundamente respeitado. Abordar uma submissa encoleirada é considerado falta ética grave entre Dominadores. Devolver a coleira é a ação de encerrar a relação por iniciativa da submissa. Quando a inciativa é do Dominante chama-se “Retirar a coleira”.

Modo sub: É uma expressão que não se usa habitualmente na comunidade BDSM. No livro encontramos dois exemplos importantes do “Modo sub”. O primeiro ocorre quando Leila vê Christian no apartamento de Ana e se coloca de joelhos, colocando-se a disposição dele. O segundo é quando Christian se entrega a Ana para que ela fizesse o que desejasse com ele. O “modo sub” é um estado de espírito se manifesta em momento de profunda entrega da submissa (ou do submisso) ao Dominante e não é incomum em momentos mais formais em uma relação de Dominação e submissão.

Ajoelhar-se: O ajoelhar-se é uma das manifestações mais clássicas de submissão sendo usada em diversos momentos nas relações de Dominação e submissão. Ao contrário do que se pode imaginar as submissas não costumam relatar sentimentos de humilhação ao se ajoelhar perante aquele que reconhecem como seu Dominante, antes descrevem uma percepção de alegria e profundo pertencimento ao fazê-lo.

Switcher: Christian, apesar de se apresentar como Dominante, quando de um grito mais enérgico de Ana entra em modo sub. Este tipo de reação, bastante comum em submissas, não acontece com Dominantes nem é indicação de amor ou dedicação de um Dominante. Dominantes que apresentam o “modo submisso” bem como submissos que também tem prazer dominando são conhecidos como switchers. Desta forma Christian apesar de predominantemente Dominante seria mais corretamente classificado como switcher, enquanto Ana não tendo aceitado a submissão de Christian seria uma submissa e não uma switcher.

Eu sempre tive quem me obedeceu, cansa com o tempo” (Fala de Christian): Esta fala de Christian é mais uma evidência de Christian ser switcher e não um Dominante puro. Entrevistas com Dominantes reais praticantes da Dominação erótica por anos, demonstram que estes não apresentam cansaço em serem obedecidos devido esta característica estar intrínseca na personalidade dominante.

Eu te quero do jeito que puder tê-la” (Fala de Christian): Esta é mais uma fala de Christian que pode ser entendida como uma evidência de Christian ser switcher e não um Dominante puro. Os Dominantes puros não costumam aceitar abrir mão da dominação mesmo em nome do amor e, mais uma vez, fazê-lo não é considerado como demonstração de amor, antes de falta de domínio. Na comunidade BDSM, geralmente quando um dominante, em nome de seu amor pela submissa, se dispõe a abrir mão da sua Dominância eles acabam sendo abandonados pelas suas submissas que deixam de reconhecê-lo como o Dominante que elas desejam.

Dominação, submissão e amor: Christian explica para Ana que ele já a amava mesmo quando ainda a queria como submissa. Ao contrário do que se pode imaginar, as relações de Dominação e submissão não são incompatíveis com o amor. Aqueles que creem nessa incompatibilidade o fazem por achar que o amor enfraquece a Dominância como de fato aconteceu com Christian. Dominadores da comunidade BDSM brasileira entrevistados sobre o tema, mesmo reconhecendo que o amor torna a dominação mais difícil, uma vez que é verdadeiramente mais difícil corrigir, punir e até mesmo dispensar quem se ama, defendem que o amor pode tornar a relação mais intensa, completa e recompensadora para ambos, Dominante e submissa. Desta forma alguns Dominadores muitas vezes se abrem para amar suas submissas mesmo sabendo dos riscos de dificuldades associadas ao amor.

Bondage e Disciplina: “Eu gosto de punir”. A fala de Christian sobre o prazer em aplicar punições ilustra outra das grandes famílias de fetiches eróticos chamada de Disciplina. A disciplina juntamente ao Bondage, fetiche por práticas de aprisionamento, é uma das grandes famílias de fetiches a partir da qual a sigla BDSM foi constituída. A grande diferença entre o fetiche pela disciplina e o fetiche pela dor presente no Sadomasoquismo é que no SM o fetiche esta centrado no sofrimento entanto na disciplina o fetiche está centrado na ideia de punição.

 

Sadismo erótico versus Sadismo patológico: Dr Flynn, o psiquiatra de Christian recebe Ana para discutir a condição e os fetiches de Christian e oferece diversas explicações muito pertinentes sobre as diferenças entre o Sadomasoquismo patológico e o Sadomasoquismo erótico.

O Código Internacional de Doenças (CID10) bem como o Manual Estatístico de Doenças mentais (DSM IV) apresentam as patologias relativas ao fetichismo, sadismo e masoquismo sob os códigos F65.0, F65.5, 302.80, 302.83 e 302.84.

Como muito bem explicado pelo Dr Flynn o sadomasoquismo de Christian não é uma patologia, ou seja, não é doentio. Ele explica que a ciência atual já reconhece que o sadomasoquismo erótico pode ser entendido como um estilo de vida.

A verdade é que o sadomasoquismo, o fetichismo, o poliamorismo e outas formas de sexualidades alternativas podem ser estilos de vida perfeitamente válidos e são muito diferentes das patologias de mesmo nome. É muito fácil, entretanto, para quem não esteja suficientemente inteirado das características tanto das patologias como dos estilos de vida confundi-los e uma consulta a um psicólogo pode ser uma boa ajuda.

 

Sobre o autor

Maurício Amaral de Almeida, é psicólogo cognitivo, formado pelo Instituto de Psicologia da USP e atende em seu consultório em São Paulo. Se dedica ha nove anos a estudar a comunidade fetichista brasileira, as formas alternativas de sexualidade e de relacionamentos afetivos.

Caso você deseje mais informações sobre qualquer desses assuntos entre em contato.

http:\\www.mauricioamaraldealmeida.com.br

 

Distribuição deste texto

Este texto esta sendo publicado sob as condições da Licença Creative Commons e pode ser distribuído livremente desde que sem alterações e com a preservação do nome do autor.

São Paulo, 30 de abril de 2013

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A Cinderela Fetichista I: Verdades e Mitos em "Cinquenta tons de cinza"

  • A Cinderela Fetichista I

Verdades e Mitos em: Cinquenta tons de cinza

 

Pelo Psicólogo Maurício Amaral de Almeida

 

 

 

Obra: James, E. L. Cinquenta Tons de Cinza Ed. Intrínseca, São Paulo, 2011.

 

Aviso: Este texto contém detalhes da obra, incluindo o final do livro.

 

Leia também:

 

A Resenha

 

Ana, ou Anastásia Steele, é uma tímida estudante de literatura, de 22 anos, que até o último ano da faculdade não havia se interessado por relacionamentos amorosos, dedicando o seu tempo principalmente à leitura dos clássicos da literatura inglesa.

 

Um dia, a colega de apartamento de Ana, a também jovem porém extremamente exuberante Kate, ou Katherine Cavanagh, estudante de jornalismo, editora do jornal da universidade, estando se sentido indisposta pede a Ana que faça em seu lugar a entrevista que ela agendara nove meses antes com o CEO da Grey Enterprises Holdings Inc, Christian Grey.

 

Este é o início de um relacionamento amoroso profundamente intenso entre Christian e Ana, esse relacionamento é emoldurado pelo mundo do fetichismo erótico através de um conjunto estruturado de práticas conhecido como BDSM.

 

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Uma introdução à etnografia da comunidade BDSM brasileira

Almeida, M. A.; Silva Jr, N. Uma introdução à etnografia da comunidade BDSM brasileira In: Silva Jr, N.; Ambra, P. Anais II Colóquio internacional práticas e usos do corpo na modernidade, Psicologia /USP, ISBN: 978-85-86736-46-9, São Paulo, 2011.


Uma introdução à etnografia da comunidade BDSM brasileira

 

Maurício Amaral de Almeida

Programa de Mestrado do CEETEPS

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Nelson da Silva Júnior

Instituto de Psicologia da USP

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Resumo: Uma quantidade crescente de pessoas que não se encaixam nas definições patológicas de fetichistas têm apresentado preferência, ou obtém grande prazer, na associação do erotismo  à atividades não convencionais. Em função do preconceito percebido por essas pessoas com relação aos seus desejos e suas preferências a maioria delas os mantêm em segredo.

Quando esses desejos encontram seu caminho e rompem as barreiras do medo e do preconceito alguns passam a procurar pares que se identifiquem com suas fantasias. Esta busca geralmente se inicia no mundo virtual para em seguida penetrar na mundo real. As diversas pessoas que viveram esse processo acabaram por formar uma comunidade que se identifica pela sigla BDSM , que é uma forma resumida de “Bondage e Disciplina, Dominação e submissão e Sadomasoquismo”.

Serão apresentados aqui aspectos obtidos em vários anos de pesquisa etnográfica iniciando no mundo virtual e seguindo até as reuniões, festas e eventos fechados onde o uso do corpo constrói prazer através de rituais elaborados e práticas surpreendentes.


Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

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Livro: Comunidade Fetichista

A partir de em seus estudos da Comunidade Fetichista brasileira, também conhecida como Comunidade BDSM, iniciados em 2005, o psicólogo Maurício Amaral de Almeida está preparando um livro introdutório, que apresenta, de forma didática e isenta de julgamentos, esta comunidade, seus procedimentos e modo de vida.


Este será um texto útil para psicólogos, jornalistas, antropólogos, e todos os interessados nesse assunto que tem chegado com cada vez mais força à mídia brasileira e é muitas vezes abordado de maneira incompleta, incorreta ou parcial.

 

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